sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pedido ao Pai Natal:

Era o último dia de aulas do primeiro trimestre do ano lectivo, dois mil e onze, dois mil e doze. O Centro Escolar ia entrar de férias. Notava-se no volume de coisas dentro das nossas mochilas e pela alegria estampada nos nossos rostos por este interregno. Dali em diante, durante quinze dias, não ia ter a voz de despertar da minha mãe: levanta-te! Está na hora de te preparares. Sim! Isto de todos dias se pôr a pé de manhã cedo para se ir para a escola tem que se diga. 
É nas alturas em que a minha mãe me acorda que tenho que interromper os sonhos. Os meus queridos sonhos! Este era mais um, a juntar a tantos outros, se não se desse o caso da minha mãe continuar desempregada e o Fundo de Desemprego a terminar. Já não bastava o caso de estar divorciada. Assim não posso sonhar com uma bicicleta nova. Tenho de me contentar com a velhinha.
Noto que neste Natal os meus presentes vão ser menos e mais pequenos. Ainda me lembro, apesar da minha pouca idade, dos presentes que uma tia da minha mãe dava a mim e aos meus primos. Eram tão pequenos que os tínhamos de segurar com cuidado se não fugiam-nos das mãos. Mas, naquele tempo, a minha tia fazia-o em tom de brincadeira porque no dia de Reis ofertava-nos outros. Parecia Espanhola! Mas não era. A Espanha foi uma vez: Santiago de Compostela e Vigo. Não sei se já previa natais de rara abundância. Não! Julgo que não. A minha tia não tem o dom da adivinhação.
Assim o que me resta pedir este ano ao Pai Natal é um emprego para a minha mãe. Porque se assim não for não vejo alegria no rosto dela. E o rosto dela é jovem e bonito. Não quero que se torne num rosto de sofrimento. Todos os quinze dias noto, a sua tristeza, quando se dirige ao Centro de Emprego para marcar a sua presença. E, como ela muitas mães e pais de meninos como eu. 
Como posso aspirar a um Natal de muitas prendas se quando vou à dispensa e ao frigorífico noto o espaço que lhes sobra! Noutros tempos os seus interiores pareciam de dimensões pequenas, hoje parecem enormes, dada a falta de géneros de alimentação.
Assim, Pai Natal, espero que não te esqueças de trazer no teu saco, trabalho, para a minha mãe e para os pais de todos os meninos Portugueses que se encontrem na mesma situação. As prendas que fiquem para outros natais mais distantes no tempo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Recordar é viver:



Manhã de sete de Outubro de mil novecentos e cinquenta e seis. Saí de casa acompanhado pela minha mãe para dar início ao meu primeiro dia escolar. Para mim é novidade para minha mãe não. Dois anos antes tinha feito o mesmo com a minha irmã mais velha, Amélia.
Depois da chamada ali fiquei com mais trinta e tal crianças todos do sexo masculino - naquela altura havia as escolas masculinas e femininas, era proibido juntar meninos e meninas - a partir daquele dia ficamos a ser companheiros, a maioria deles, pela vida fora.



Escolas Amarelas


O Sr. Professor Valente, já na casa dos sessenta anos, mas ainda bem conservado e uma disciplina rígida, era um mestre-escola, que hoje em dia qualquer Ministro da Educação necessitava nas suas fileiras. Quando por algum motivo não podia dar aulas, era substituído pela sua esposa «também professora» mas na sala era a anarquia total. Era de uma bondade extrema e para se segurar numa turma como a minha era difícil. Só pessoas do género do professor Valente ou como mais tarde na quarta classe – andei até à terceira classe com o professor Valente - vim a encontrar a Sr.ª professora Adelina.
Passei a ter aulas no período de tarde. Todos os dias de manhã deslocava-me à cantina escolar para ir tomar o leite em pó. Naquela altura os mais necessitados socorriam-se destas dávidas para matar a fome. Morava a cerca de um quilómetro da cantina e a minha mãe esfarelava um bocado de broa velha e punha um bocado de açúcar numa malga para ir tomar o dito leite em pó.
Como ficava um pouco distante a fome e a lambarice eram mais fortes quando chegava à cantina já tinha devorado tudo, depois só bebia o leite. Ao meio dia lá aparecia para comer o caldo e que bom que era, com um feijão vermelho grande, era uma delícia. Nos dias do óleo de fígado de bacalhau bem me apetecia não ir mas, a fome…! Fechava os olhos e tapava o nariz, era assim que o tomava.
Quando vinha para o recreio tinha colegas, poucos, com mais posses, desembrulhavam uns pequenos embrulhos e de lá tiravam o lanche e não ofereciam a ninguém. Não podiam oferecer senão não comiam nada – eram mais os que não lanchavam.
Entre esses ditos abastados havia um que todos os dias me pedia para copiar os meus deveres o que eu deixava. Como não me oferecia do seu lanche a partir de um certo dia pus-lhe como condição ou me dava um pão com manteiga – era o que ele lanchava – ou ia bater a outra porta.
Depois desta proposta todos os dias ansiava pela hora do recreio.
A partir da terceira classe veio uma ordem em que os alunos eram obrigados quando entrassem na sala de aula a vestir uma casaca da mocidade Portuguesa, e a cantar o lá vamos cantando e rindo.